Fábrica Klabin (PR)

Industria de Cimento Cimpor - João Pessoa (PB)

Fábrica de Discos Mocambo - Recife (PE)

Estacao das Docas - Belém (PA)

Fábrica Itambé - Sete Lagoas (MG)

Casa dos solteiros da "company town" Cia Industrial Pernambucana -Camaragibe (PE)

Fábrica de cigarros Sinimbu (RS)

Silos abandonados e ferrovia - Favela do Moinho, São Paulo (SP)

Fábrica de óleos vegetais - João Pessoa (PB)

SESC Pompeia antiga fábrica de tambores - São Paulo (SP)

Indústrias Matarazzo - São Caetano (SP)

Tinturaria e Estamparia Suzano - São Paulo (SP). Foto Glaucia Garcia de Carvalho e Douglas Nascimento

Fábrica de lâmpadas G.E. (RJ)

Chaminé da extinta Indústria Matarazzo - João Pessoa (PB)

Mostrando postagens com marcador destruição. Mostrar todas as postagens
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sábado, abril 14, 2012

Museu da Cerveja em Petrópolis

Depois de férias prolongadas, o blog volta à ativa com uma boa notícia: a inauguração do Museu da Cerveja em Petrópolis no dia 29 de março. A Cervejaria Bohemia, fundada em 1853 por um colono alemão chamado Henrique Kremer, foi a primeira do Brasil e funcionou até 1998.

O museu, instalado na antiga fábrica da Bohemia, é um exemplo de reutilização do patrimônio industrial no Brasil. A expografia baseou-se no tema“Uma saga, uma cidade, uma cervejaria”.


Croqui da fachada da Cervejaria Bohemia revitalizada (www.ambev.com.br)


"A história da mais tradicional e antiga cerveja do país é mostrada com o suporte da alta tecnologia. São diversos painéis interativos, que tornam o passeio mais divertido e facilita o aprendizado dos conteúdos.

A visita começa pela “saga da cerveja”, onde os visitantes conhecem um pouco da história da bebida, desde a sua criação, quase acidental, na Suméria, uma das primeiras civilizações, até os tempos de hoje, numa fase em que a produção é feita em série. Nesse caminho é mostrada a evolução nas técnicas de produção e a expansão do produto pelo mundo, impulsionadas pelas grandes navegações. Neste ambiente também é possível obter informações sobre o consumo e produção de cerveja no Brasil e no mundo.
Em seguida, a visita passa pela “Sala do mestre cervejeiro”, espaço dedicado a contar a história da cervejaria, que se confunde com a própria história da cidade. A visita mostra ainda os ingredientes utilizados na fabricação da cerveja até o processo de transformação. Ao fim, mais interatividade, que é a grande marca do passeio, na sala de estúdio. Lá é possível fazer cartões postais e divulgá-los por redes sociais como facebook e twitter. Os jogos disponibilizados são feitos a partir de uma tecnologia que faz uma leitura dos movimentos corporais e os reproduzem na tela." (Diário de Petrópolis)

Inauguração da fachada em 2010

Além do museu, a fábrica também será reativada. Nas instalações da cervejaria serão produzidas as variantes da Família Bohemia (Pilsen, Escura, Weiss e Confraria) e edições especiais da marca. 

Enquanto isso, outras fábricas de cerveja não tiveram um destino tão feliz

Implosão da Fábrica Brahma em Fortaleza (2010)

Implosão da Fábrica Brahma Rio de Janeiro (2011)

Antiga fábrica da Antarctica Paulista em São Paulo - ver reportagem do São Paulo Antiga


E para conhecer um pouco mais sobre a história da indústria da cerveja no Brasil, recomendamos este post bastante interessante sobre cervejarias brasileiras extintas.




quarta-feira, março 07, 2012

Patrimonio Industrial e Arte 2

Mais um post dedicado à beleza bem sempre óbvia do patrimônio industrial. Descobri as fotos intensas de "urban exploring" do fotógrafo suíço Simon Christen. Enjoy! 


No site do artista, há mais fotos. Confiram!


Estação de trem, Califórnia - USA
Central energética, Bégica
Escritório em um manufatura de aço, Bélgica
Peças numa central energética, Califórnia - USA
Estação de trem, Califórnia - USA






sábado, janeiro 21, 2012

Símbolos do periodo áureo da Borracha sob ameaça

Diário do Pará
CDP quer tirar galpões para fazer estacionamento

Dois dos símbolos do período áureo da Borracha e da própria história da cidade, dois galpões de ferro da Companhia Docas do Pará (CDP), estão sob a ameaça de desmonte para darem lugar a um estacionamento de contêineres.

Convite para inauguração do Porto.
FONTE: "Belém da Saudade"


A decisão de desmontar os armazéns 11 e 12 já mobilizou o Ministério Público do Estado que, por meio da promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente e Patrimônio Cultura, entrou com uma ação para evitar o desmonte dos galpões que são tombados há mais de 10 anos pelo Departamento do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Estado do Pará (DPHAC). A Secretaria de Estado de Cultura (Secult) também impetrou ação na Justiça para impedir o desmonte dos galpões.

O promotor de Justiça Bendito Wilson Sá informou que a ação pública objetiva impedir o desmonte do patrimônio histórico e cultural, referindo-se aos dois armazéns. O promotor acrescentou que a União demonstrou interesse na ação e que o juiz responsável declinou da competência encaminhou para a Justiça Federal. “Infelizmente nós estamos assistindo de braços cruzados à falta de carinho para Belém, que está para perder um de seus marcos históricos”, critica.

PERÍODO HISTÓRICO

Benedito Wilson Sá argumenta que os armazéns do porto de Belém representam no Estado do Pará o período histórico da Revolução Industrial. “É um exemplo vivo da plenitude desse momento histórico da humanidade”, afirmou. “O objetivo alegado pela CDP não justifica tamanha mazela histórica, alegando que os armazéns atrapalham o desenvolvimento do porto. É simplesmente iludir a população acerca de uma atividade extremamente onerosa e que ao longo do tempo vem trazendo prejuízos para o povo brasileiro”.

O promotor baseia suas declarações em um relatório publicado pela Controladoria-Geral da União (CGU) e acrescenta. “A CDP é deficitária e o que ela afere de ativos não dá nem para pagar seus funcionários, fora que já foi alvo de diversas ações de corrupção”.

Benedito Sá diz ainda que se a CDP tivesse a mínima preocupação com a cidade de Belém, deveria transferir suas atividades para os portos da Sotave, na ilha de Outeiro, ou ainda para Vila do Conde, em Barcarena. “Assim deixavam os armazéns ao logo da Castilhos França para que pudéssemos construir um estabelecimento necessário ao turismo receptivo em Belém”, justificou.

O secretário de Cultura, o arquiteto Paulo Roberto Chaves Fernandes, também criticou a decisão da CDP. Paulo Chaves também lembrou que as edificações são tombadas como patrimônio do Estado. “Esses armazéns remontam do período da borracha, fazem parte do patrimônio e da história da cidade”.

“Esta área portuária está localizada dentro da cidade. Não tem mais expansão. Qualquer incremento em área portuária aumenta o número de carretas, gerando mais engarrafamentos e com isso mais problemas para a cidade. Não se encontrou em tempo hábil uma solução, mas tem de se encontrar uma solução definitiva para o problema”,

MEIA-SOLA

Paulo Chaves aponta como soluções para a ampliação da área de contêineres da CDP seria o porto de Vila do Conde, que já concentra 45% das atividades da empresa. Outra alternativa seria a construção do porto do Espadarte, no município de Curuçá, aponta o secretário. “Na verdade é que nunca se deu muita importância pra isso (ampliação do porto). O que querem fazer é uma meia-sola para incrementar essa atividade. Não sou contra os portos, sei que isso gera renda e empregos e traz divisas para o Estado. Mas a minha preocupação é que a direção da CDP tenha bom senso, visão local. A vida da cidade deve ser planejada. Temos de partir para uma solução definitiva. Espero que qualquer decisão que seja tomada seja boa para todos”.   

CDP

Procurada pelo DIÁRIO para comentar a polêmica decisão, a Companhia Docas do Pará argumentou que a assessora de imprensa da empresa estava viajando e não haveria ninguém para falar sobre o assunto. (Diário do Pará)


segunda-feira, janeiro 16, 2012

Entrevista com o secretario de Desenvolvimento Urbano de Salvador (2009)

Esta entrevista com o secretário de Desenvolvimento Urbano de Salvador é antiga, datando de 19 de maio 2009; porém, é reveladora da falta de reconhecimento do valor do patrimônio histórico em geral e do patrimônio industrial em particular. Para os políticos brasilieiros, o valor histórico (ou cultural) é apenas um ato administrativo, resumido no simples tombamento. Sem tombamento não há valor. 

A entrevista trata do decreto de desapropriação de imóveis numa área de 324 mil metros quadrados na orla de Salvador que implicaria na demolição de prédios históricos, incluindo Fábrica Luiz Tarquínio, marco do início da industrialização nacional. Felizmente, o prefeito João Henrique Carneiro (PMDB) recuou diante de protestos de moradores e anulou o decreto. 



Cartão postal do Empório Industrial do Norte


Leia a entrevista:

(link da publicação) 

Terra Magazine - A verdade é que a sociedade jamais é verdadeiramente chamada. No caso desse decreto da Cidade Baixa, a sociedade foi convocada para discutir?
Antonio Abreu - Se você chamasse a sociedade, vamos pontuar: a sociedade vai ser chamada. Nós não fizemos nada, nós congelamos a imagem. A imagem tá congelada.
(...)
A questão, objetivamente, que nós temos que tratar, é a seguinte: qual é o projeto para a Cidade Baixa? Queria que o senhor definisse também o que é "socializar a orla". Qual o significado disso?
Que as pessoas tenham a oportunidade de ver, tanto quanto aquele cidadão da Vitória que está vendo a Baía de Todos os Santos... Mas...

Não tem que "socializar" a Vitória? Não é a lógica da Cidade Baixa?
Não, senhor.

Não vai demolir nada?
Claro que vai.

Para quê? 
Para nada. Para você socializar a Baía de Todos os Santos.

Mas, secretário: o corredor da Calçada, por exemplo, que é histórico...
Histórico, não...

Tem casarões históricos. 
Os que são tombados pelo Patrimônio são a Fratelli Vita... E o Iphan está conosco nessa história. Deixa eu registrar uma coisa: quando diz que Salvador não tem estrutura patrimonial...

Não, não tem.
Mas a estrutura é do Iphan.

Mas ele não foi consultado no caso desse decreto.
Quem foi que disse isso?

Isso saiu nos jornais.
Eu não fui formalmente...

Mas, informalmente? Para o nosso internauta saber: é que os baianos têm aquela coisa da informalidade, mas parece que são dois ou três senhores que decidem tudo. Só para deixar claro: Salvador não tem nenhum órgão formalmente constituído para cuidar dessa questão de meio ambiente, cultura, não tem constituído legalmente. Não tem corpo técnico para tal. 
Tem, tem. Desculpe, mas tem.

Com poderes designados para tal, não tem. 
Tem. A SMA, a superintendência de meio ambiente, nós temos lá inclusive com o senhor Luiz Antunes, que é um dos maiores profissionais...

De meio ambiente, mas e a coisa chamada cultural? 
...Isso em Salvador, que é uma cidade tombada pelo patrimônio da humanidade, o Iphan determina todas as regras básicas. Tanto é que, no próprio PDDU, determinadas decisões relacionadas à implantação de qualquer tipo de equipamento, o Iphan se pronuncia. Você conhece aqui aquele negócio que é a "Tarzan", daqueles galpões?

O senhor se refere à antiga fábrica Luiz Tarquínio (do século XIX).
Deixa eu explicar: existem na Cidade Baixa antigas fábricas já completamente...nem teto tem... Hoje elas estão sendo, simplesmente, depósitos de containeres. Inclusive, nós pretendemos até fazer uma legislação específica sobre isso. Inclusive entrei em contato com o secretário da Infra-Estrutura para evitar que containeres circulem naquela área dentro de caminhões, porque o asfalto não foi feito para isso. Então, nós estamos tendo que... porque eles consideram aquela área que ninguém dava valor, essa coisa toda, um depósito de containeres.

A prefeitura pretende demolir a fábrica de Luiz Tarquínio?
Antonio Abreu - Rapaz, se não for tombado historicamente e tudo, dentro do processo, sim.

Mas é uma fábrica que, mesmo que não seja tombada, tem uma importância histórica para a cidade, porque fez uma das primeiras vilas operárias do país. 
A Vila Operária é do outro lado.

A Vila é do outro lado, mas a fábrica tem um valor histórico para o País. 
Quem vai dizer que é valor histórico é o Iphan.

É inegável que tem valor histórico. O senhor sabe a importância daquela fábrica de Luiz Tarquínio para a história da cidade?
Eu sei, eu sei... Veja só, meu amigo... A cidade cresce em função de vários fatores, de vários eventos, vários personagens que são criados... E esses personagens... Se você fizer uma escavação, como acontece naquelas regiões da África, você vai ver uma cidade embaixo, outra cidade em cima, porque o processo é dinâmico.

Empório Industrial do Norte em atividade com vila operária contígua [DCFH - Universidade Estadual de Feira de Santana - UEFS]

Mas grande parte do mundo hoje...
Aquilo ali, historicamente, não sei se tem valor histórico... Alguém tem legislar sobre alguma coisa. Eu acho muito interessante. Veja só: com toda sinceridade e respeito, ele teve um fator realmente relevante, foi ali que os grandes coronéis exploravam os seus empregados...

Exatamente por isso é bom conservar...
Veja só: essa vila tem um contexto histórico espetacular. Foi um dos primeiros projetos no Brasil, não sei se você sabe disso, de socialização das relações trabalhistas. Porque uma vila onde o trabalhador tinha cooperativa, assistência médica...

Escola...
Isso aqui eu acho um monumento histórico.

Mas o senhor está se contradizendo. Essa vila operária girava em torno da fábrica. 
Mas, meu amigo, o que vou fazer com aquela fábrica?

É isso que a gente quer saber!
É um depósito de containeres!

Mas o que vai fazer?
Ahhh, vou fazer o seguinte, mais do que isso. Primeiro, devolver ao mar o que roubaram do mar.

Isso no século XIX...
Não, não... Eles aterraram muitas coisas ali naquela praia do Cantagalo... eu vivi ali, tomei banho de mar muitas vezes... Você tem determinadas coisas que até entraram mar adentro, uma espécie de píer. A gente tem que devolver isso pra população, pra que a população faça uso disso. Você quer ver uma coisa que é histórica e que jamais será mudado? O campo de futebol do Mont Serrat!

É uma visão meio demagógica. O senhor está fazendo isso pra agradar aos jogadores de futebol...
(ri) A discussão tem que ser muito centrada no seguinte: algumas coisas são emblemáticas. Aquele campo de futebol é emblemático. Você não conhece um itapagipano que não tenha jogado ali. Que não tenha passado ali ou que não tenha ido assistir a um jogo.

Aquele campo é mais importante do que a fábrica de Luiz Tarquínio?
É gente, tem vida! Aquela fábrica só tem pedaços... tá caindo...

Enroladeiras na Empório [DCFH - Universidade Estadual de Feira de Santana - UEFS]

Mas é a história. A história é isso! Se for levar por aí, o Pelourinho não tem sentido de existir. 
Não... Não... Peraí...

No Pelourinho, os humanos, as pessoas não foram ouvidas na reforma e deu naquilo. 
Nós vamos trazer pessoas, algumas inclusive estão se oferecendo pra participar. Entendeu? Vamos formar um grupo formal. Todo processo é co-participativo.

Cidade Baixa. Na região a ser desapropriada, o que teremos ali? Praças ou prédios?
Nenhum prédio na área, a não ser aqueles prédios que têm tombamento.

O que será construído na região?
Áreas de benefício público.

O que isso significa?
Significa praças, significa equipamentos comunitários, calçadões e praias, pra que as pessoas possam usar...

Serão desapropriadas residências?
É possível que sim. Certamente que sim.

Com que dinheiro a prefeitura vai pagar?
O recurso é o seguinte. A equação do dinheiro não é equação de prefeitura. Nós temos vários instrumentos que geram dinheiro. A prefeitura é hoje dona de um patrimônio de imóveis...

Há uma discussão, no Brasil, sobre precatórios. Como as pessoas vão ser pagas?
Precatório, não. As pessoas serão realocadas num raio pequeníssimo em relação aonde estão, indo pra um tipo de imóvel de uma qualidade muito superior ao que elas estão.

As pessoas serão indenizadas, realocadas?
Realocadas em espaços mais qualificados.

E se a pessoa disser: eu não quero ser realocada?
O poder público, independentemente, nesse contexto, decretou de utilidade pública.

A Fundação Mário Leal Ferreira não tem especialista em patrimônio histórico?
Patrimônio Histórico é o Iphan.

Mas como é que a prefeitura não tem um corpo técnico pra fazer uma intervenção dessa? Oficialmente, você não tem poder legal pra fazer uma intervenção dessa.
Mas, à medida que a gente não tenha, a gente tem que buscar onde tem, percebeu? A nossa função... Nós somos os animadores do processo. A parte do patrimônio histórico? O meu parceiro é o Iphan. E o Ipac, instituição do governo. Nós discutimos a cidade, o patrimônio da cidade, o que tem que ser feito...

Por que a cidade está absurdamente estrangulada? Se tudo é tão...
A cidade problemas de mobilidade urbana? Tem. A cidade tem um metrô que está se arrastando aí... Tem uma série de coisas.

Perguntas de internautas: o metrô. Se essa não é a prioridade, qual é a prioridade? Qual é o casamento entre este projeto e esse processo todo? Como está sendo pensado de uma maneira ampla?
Você tem razão quando você coloca, com muita propriedade, que as coisas vão se modificando, vão se modificando, daqui a pouco você tem um monstro. Mudou pra um pensamento, mudou pra outro pensamento, daqui a pouco aumentou aí e, realmente, é um problemão. Gastou-se uma fortuna. O prefeito está realmente determinado a resolver isso, de qualquer sorte, pra que esse metrô funcione. É um absurdo que não possa funcionar. O Centro, a gente sabe que se errou muito. A gente tem minimizar os problemas.

Quando o senhor pretende apresentar o projeto da orla da Cidade Baixa?
Em outubro.

Algumas perguntas de internautas. Como foi resolvido o conflito de verticalização de prédios na Orla e o tombamento de parte dela pelo Iphan?
Na medida em que você tenha uma verticalização que é contradito ao que o Iphan determina, prevalece o Iphan.

Por que uma cidade tão rica historicamente não tem uma legislação específica para bens culturais e menos ainda um órgão voltado para essa questão.
Nós temos uma Fundação Gregório de Mattos...
Que acaba de perder o seu próprio teatro.
É... O prefeito, por exemplo, nós tínhamos 20 e tantas secretarias. Oh meu Deus do céu, concordo com você: já temos 5 anos. Mas dois anos tumultuados, um pau lascado, o PT... Não tô dizendo quem tem culpa e quem não tem culpa. Estou falando factualmente. A partir do segundo ano e meio, o prefeito separou essa coisa toda e a prefeitura volta um pouquinho. É uma das poucas prefeituras do Brasil que fez uma reforma administrativa de qualidade. Uma das poucas que está reduzindo o custeio em função dessa redução. Eu não reclamo: é pouco, precisava ter mais. É um esforço que todos nós precisamos ter pra fazer uma coisa certa.
Secretário, infelizmente o tempo não é tão largo... não é um tempo baiano...
(risos)
Mas queria fazer outra pergunta... Qual a garantia que o cidadão de Salvador pode ter de que, mais uma vez, não teremos um jogo como o de sempre? De câmaras eleitas com campanhas pagas por empresários, prefeitos eleitos da mesma forma, e a contrapartida se devolve em espaços públicos, sem que a sociedade seja efetivamente consultada? 
Eu dividiria em alguns tópicos. Primeiro, o problema político não é um problema da prefeitura do Salvador. É um problema de Brasil. Financiamentos de campanha...

Sem querer ser deselegante, não dá pra dizer: "desculpe essa suruba generalizada..."
Mais ou menos isso. A gente sabe que é mais ou menos isso. O segundo é isso: nós temos os nossos legisladores, têm que ter a coragem e o respeito com o povo que os elegeu pra fazer, primeiro, uma reforma política de qualidade. Esse negócio que existe aí de "contexto político" é, realmente, uma panacéia.

Secretário, enquanto isso não existe, isso é um problema. Se isso não envolver a população de uma maneira muito mais ampla, será novamente um jogo de senhores e esses senhores que participam desse tipo de festinha.
Mas você veja o seguinte: nós temos, infelizmente, com todos os problemas que nós temos, com toda essa panacéia, nós temos ainda uma democracia. E o povo escolhe seu mandatário. Isso, felizmente, nós temos ainda. E estamos tendo alguns exemplos muito interessantes. À medida que as pessoas tentam se perpetuar, se diz: chega, saia... O maior exemplo disso é o governo Wagner. Como aconteceu em Lauro de Freitas, que até meus amigos perderam lá a eleição para Moema (Gramacho). Então, o povo está começando a criar consciência. Agora, pra que isso aconteça, nós temos que ter grandes, grandes investimentos em educação, o povo tem que ser levado a sério...

Ok, mas o povo ser levado a sério, o povo tem que ser ouvido, as instituições têm que ser ouvidas, a Câmara, não aquele joguinho...
Recentemente, eu participei de uma audiência pública... inclusive, "o dia em que vocês me quiserem aqui, não tem problema"...

Isso aqui é uma audiência pública, tentando discutir os problemas da terceira cidade do País e primeira capital...
Exatamente. Terceira cidade em população e, infelizmente, a penúltima em renda. Uso essa oportunidade pra dizer a vocês o seguinte: estou convivendo com o prefeito João Henrique durante esse período, sei realmente que ele está determinado a criar efetivamente criar uma prefeitura mais consistente, uma prefeitura popular. Eu tive a felicidade de conviver com ele na eleição e sei que o secretariado hoje está comprometido, está junto com ele pra qualquer coisa. Nós queremos efetivamente mudar isso que você está colocando...

Que Deus nos ajude... Pra encerrar, pra não ficar dúvida, o cerne da questão: casas que tiverem que ser eventualmente desocupadas, os moradores serão indenizados?
Serão realocados. Podem até ser indenizados. Podem até ser. Mas a idéia, a princípio, é realocá-los. Mas veja só: quando eu falo, fico até um pouco preocupado, porque quando eu digo isso pode estar existindo a idéia de que isso vai ser aquilo. Em realidade, essa idéia não existe. Você sabe que tem pessoas, técnicos, profissionais, do mais alto nível, alguns não são da prefeitura, que estão espontaneamente fazendo isso, como o próprio (Antonio) Caramelo (arquiteto) que se colocou à disposição com os profissionais...

Os professores de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia, que estão se mobilizando em relação a isso, vão ser ouvidos?
Claro. Toda a sociedade tem que ser ouvida.

Vão participar?
Todos os professores de Arquitetura, de Administração, de Economia... A única coisa que eu acho é que compromete muito os projetos quando as pessoas são partidárias...

Mas as pessoas são partidárias!
Falo partidária em relação a partidos políticos. Quando as pessoas desviam o assunto do processo realmente...

Eventualmente, é essa desculpa que tem quem quer partidarizar e politizar a questão. É dizer: "aqui não tem nada a ver com partido político". Estamos discutindo aqui um problema da cidade do Salvador.
Sim... Eu sento pra discutir. Inclusive, quando eu cheguei na secretaria, eu disse: "não quero a carteira de partido de ninguém. Política lá fora." E mantive quase toda a equipe. Entendeu? Me ajudaram muito, ajudaram muito o prefeito e ajudaram a cidade muito. Pessoas que já estavam lá. Agora, técnicos que estão lá...

Infelizmente, nosso tempo está acabando e eu queria dizer que vamos continuar acompanhando essa questão agora, em junho, julho, setembro, outubro... Como estou dizendo ao senhor, que Deus nos ajude...
Estou à disposição de vocês. Vim aqui com esse objetivo. Eventualmente eu não gostaria deixar de dizer só um pequeno porquezinho, mas fica chato quando o nosso governador, que não deve ter sido bem informado, diz: "é suspeito esse decreto...".

O governador deve saber do que está falando.
Não. Eu acho que foi mal informado. Tenho admiração por ele, mas quero dizer em relação ao governador o seguinte: ele colocou até uma expressão... Esquisito! Não é esquisito.

Só pra encerrar. Quando o governador do Estado da Bahia não sabe exatamente do que se trata, quem é que vai saber?
É só alguém. Basta alguém ser alfabetizado pra ler. Decreto...

Mas, e o projeto? Primeiro o decreto e depois o projeto?
Mas isso já foi feito "n" vezes em Salvador.

Por isso que está daquele jeito.
Não, não é por isso. O Parque das Dunas é um sucesso dessa medida. Agora, a gente quer fazer o certo, o correto. A secretaria está aberta. Não tem carteira de partido pra entrar lá.
(...)
Secretário, obrigado. Voltamos a repetir: Que Deus nos ajude...
O Senhor do Bonfim também, não se esqueça, não.

Clique aqui para assistir à entrevista: 

terça-feira, dezembro 13, 2011

Demolicao de sobrados em Perdizes

A destruição da memória afeta não apenas o passado,  como também o futuro. Para mim, a memória é a forma mais alta da imaginação humana, não é apenas a capacidade automática de recordar. (...) Se a memória se dissolve o homem se dissolve. (Octavio Paz)


Apesar desta reportagem não tratar diretamente do patrimônio industrial, achei importante compartilhá-la. 
A destruição de bens em processo de tombamento é uma prática - infelizmente - bastante comum em todos os estados do Brasil. Porém, o que mais me chamou a atenção foram os quase 200 comentários escritos pelos leitores do jornal Folha de São Paulo. 
Quando abri a página para ler a opinião dos leitores, esperava encontrar outras pessoas que compartilham a minha revolta e indignação. Engano total. O que encontrei foram palavras em defesa da demolição e contra o tombamento do patrimônio. 
Por um lado, a reportagem e os comentários mostram o quanto os cidadãos não se reconhecem na história do seu próprio país ou da sua cidade. A história ainda é morada do outro, dos poderosos, dos vencedores, dos ilustres e, portanto, considera-se que apenas esses possuem memória e patrimônio. É preciso lutar para mudar esta visão restrita, elitista e ultrapassada de história e patrimônio para que a sociedade possa abraçar, respeitar, valorizar e, sobretudo, se reconhecer na história e no patrimônio.
Por outro, revela o imperativo de refletir sobre a instituição do tombamento, a revisão dos mecanismos de conservação e proteção do patrimônio cultural e sobre como aproximar lei e sociedade.




Casas em processo de tombamento vão ao chão em Perdizes, em SP
VANESSA CORREA
DE SÃO PAULO

Apesar de protegido por processo de tombamento, um conjunto de quatro sobrados dos anos 1940 veio ao chão na quinta passada em Perdizes, zona oeste de São Paulo.

Veja galeria de fotos

As casas faziam parte de um estudo do Conpresp (órgão do patrimônio histórico municipal), aberto em setembro. No processo, 63 imóveis do bairro seriam avaliados e poderiam ser tombados.

Os sobrados demolidos na rua Monte Alegre com a Turiaçu estavam no processo "por se tratar de um tipo de ocupação que predominou no período entre 1940 e 1950, antes da verticalização da região", segundo o Conpresp.


O dono, Carlos Manoel dos Santos Eloy Rodrigues Pereira, 58, afirma que não havia sido comunicado sobre a abertura de tombamento e que tinha o alvará de demolição. "Então, eu quero que vão para o raio que os parta".

Ele diz que o conjunto foi construído pelo seu avô para obter renda com o aluguel, "como fazia todo português". Afirma que vai construir um prédio, também para locação.

O Conpresp diz que, como não havia autorizado a demolição, ela é irregular, e, "constatados os danos", o proprietário pode ser multado.

A multa pode chegar a até dez vezes o valor do imóvel. O Conpresp pode ainda pedir o embargo de obras no local.

O poder do órgão, porém, é limitado. Muitos proprietários recorrem, alegando não ter sido informados sobre o tombamento ou questionando os valores das multas.

Grande parte delas não são pagas --os multados ameaçam ir à Justiça devido à fragilidade das autuações. Os conselheiros do Conpresp, que devem votar pela aplicação, temem responsabilidade judicial, segundo apurou a Folha.

O orçamento para 2011 vindo do fundo de multas é de R$ 800 mil. Mas o valor de autuações é bem maior: só o dono de um imóvel, no Brás, foi multado em mais de R$ 20 milhões.

O processo de aplicação foi revisado e será enviado "em breve" à Câmara, diz o órgão.

Destruição do patrimônio é ainda crime com pena de até três anos de reclusão, segundo a Lei de Crimes Ambientais.

Outro caso, bastante conhecido, foi o da mansão Matarazzo, na av. Paulista, tombada em 1989. Tempos depois, bombas explodiram no subsolo e suas estruturas foram comprometidas por vazamentos.

Os donos conseguiram, então, reverter na Justiça o tombamento e demoliram o imóvel.

terça-feira, novembro 15, 2011

Destruicao do patrimonio fabril em SP

Chamines adormecidas
Notícia publicada na edição de 08/11/2011 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 006 do caderno Turismo

Eric Mantuan - AgênciaJor/Uniso.
(camargoeric@ig.com.br)



Azulejos na entrada lembram história da Matarazzo de São Caetano: dali para dentro, somente ruínas
Por: ERIC MANTUAN


Imagine um guarda correndo e agitando freneticamente uma bandeirinha, em plena Marginal Tietê, tentando parar os carros para o trem poder passar. Bem-vindo à Vila Jaguará, São Paulo, anos 70.

O tempo passou, o frigorífico no qual o trem entrava depois de toda essa confusão já trocou de nome e de dono, a via férrea mudou-se para uma ponte e essas histórias ficaram apenas na memória das pessoas. Ainda assim, fazer um passeio pela história fabril paulistana - ou o que sobrou dela - pode ser um programa interessante para quem já conhece a face menos alternativa que a Pauliceia apresenta.

Os mais antigos certamente se lembram da expressão "você pensa que sou um Matarazzo?", utilizada para justificar uma negativa a algum pedido. Se levarmos em conta a magnitude do que foi o maior grupo industrial brasileiro, com quase 300 fábricas, pode-se dizer que pouca coisa sobrou. A parte preservada do patrimônio fica na Água Branca, onde as três chaminés-símbolo da empresa foram restauradas, sob o nome de "Casa das Caldeiras", e fazem parte de um espaço para eventos. Dividem o terreno com quatro torres de escritórios, construídas onde existia um imenso parque fabril, responsável pela fabricação de uma centena de produtos - de velas a xícaras de porcelana. As chaminés só não tiveram o mesmo fim do restante do complexo porque o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Arquitetônico do Estado de São Paulo (Condephaat) interveio na demolição, no final dos anos 80.

Mas quem chega a São Caetano pelos trens da Companhia Paulista de Trens Metropolitano (CPTM) logo repara em outra chaminé, e em um cenário bastante diferente do visto na Água Branca. Assim que a composição cruza o Ribeirão dos Meninos, na divisa daquela cidade com a capital, os azulejos decorados com a marca "IRFM" - Indústrias Reunidas Francesco Matarazzo - avisam que estamos diante da planta São Caetano, da Matarazzo. Num espaço que ocupa parte São Paulo, parte São Caetano, funcionou a primeira refinaria de petróleo do Brasil, processando óleo cru vindo do exterior por navio e, do porto de Santos, por trem. Ali também eram fabricados produtos cerâmicos, químicos e tecidos de raiom. As instalações foram parcialmente demolidas no começo dos anos 90, restando os galpões que fazem fundo com a via férrea. Uma área construída restante ainda recuperável que está vindo abaixo para dar lugar a um parque, pelas mãos - ou máquinas - da prefeitura de São Caetano, a quem caberia, se houvesse interesse, a defesa daquele patrimônio.

Não por acaso, grande parte das antigas instalações industriais ficam às margens dos trilhos da Sorocabana e da Santos-Jundiaí, hoje operados pela CPTM, pois a via férrea era indispensável para o recebimento de matéria-prima e o escoamento da produção. É o caso, por exemplo, da Companhia Antarctica Paulista, ao lado da Estação Mooca. Nessa fábrica surgiram, entre 1910 e 1920, a Soda Limonada e o Guaraná Antarctica. Enquanto o processo de tombamento do imóvel se arrasta no Conselho Municipal de Patrimônio Histórico, o prédio se deteriora. Mais deteriorado ainda está o Moinho Fluminense, entre as estações Júlio Prestes e Barra Funda, bastante destruído e invadido por dezenas de pessoas que ali vivem em condições de extrema miséria.

Salvo algumas exceções, como o Sesc Pompeia, instalado em uma antiga fábrica de geladeiras, o Grande Moinho Minetti-Gamba e o Cotonifício Crespi, estes últimos na Mooca, restaurados para sediarem, respectivamente, uma casa de eventos e um hipermercado - apesar deste último ter demolido boa parte do prédio para dar espaço ao estacionamento da loja - a maioria das instalações fabris paulistanas converteu-se em cenários de abandono e destruição. A falta de rapidez nas leis que lhes asseguram a preservação e a verticalização acelerada de áreas consideradas como apenas industriais no passado colocam a maioria dos prédios em risco.

Se considerarmos que os apitos dessas fábricas silenciaram nas décadas de 1980 e 1990, quando os tradicionais grupos industriais passaram a migrar para os pequenos centros ou mesmo fecharam suas portas por dificuldades financeiras, e todos os percalços para a preservação desses prédios, como a falta de interesse dos proprietários na aplicação de projetos de reciclagem de espaço, por exemplo, é sorte ainda vê-los em pé. Como não se sabe até quando, visite enquanto é tempo.
  
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quarta-feira, novembro 09, 2011

Cervejaria historica vai virar shopping em Ribeirao Preto

O prédio da antiga Cervejaria Antarctica (inaugurada em 1911), localizado no centro de Ribeirão Preto, foi adquirdo por um grupo de investidores e será transformado em um centro de compras.  O projeto, apresentado à prefeitura da cidade na última semana, inclui além do shopping de 300 lojas, prédios comerciais e uma faculdade e deverá será iniciado no próximo ano. A compra não incluiu os equipamentos da cervejaria, que serão retirados do local pelos antigos proprietários em até 180 dias.

A Prefeitura solicitou que a fachada histórica seja preservada no novo empreendimento e que haja um museu da cervejaria no local. Foi também pedido que a antiga fábrica da Cerveja Kaiser,  localizada na mesma avenida, não fosse incluída no projeto. O edifício da Kaiser é tombado pelo patrimônio histórico e abriga o Núcleo de Cinema de Ribeirão Preto - Estúdios Kaiser.

Mais um capítulo do desenvolvimento industrial do Brasil desaparece. Resta esperar que, pelo menos, a fachada seja respeitada e que o projeto do museu se concretize, e que a memória do local seja minimamente respeitada.